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+ Pintura Como Expansão

Por Felipe Scovino

[Texto para a mostra "Sinopse", Mercedes Viegas Galeria de Arte, Rio de Janeiro, maio de 2010]

Contemplando a pintura de Alice Shintani, resolvi escrever esse relato para os desacreditados. Apesar da morte anunciada de um corpo que ninguém viu o cadáver (como é a pintura), nunca fui um pessimista. Ademais, posso enumerar um pequeno corpo de qualidades para a permanência da pintura como meio de experimentação. Um deles é o risco, aqui colocado como situação-limite que é elaborada, desafiada e proporcionada pelo artista ao circuito de arte. Trabalhos que operam numa fronteira onde o sensível e o inesperado podem se configurar numa potência com a qual é impossível medir. A pintura de Shintani, portanto, habita esse território.

Na série Sinopse, a artista opera com a minimalidade: com uma economia de gestos, as linhas em suas pinturas criam espaços que estão insatisfeitos com a sua própria condição de serem pinturas. Não estão confortáveis com o limite da moldura e desejam o exercício livre do espaço. Confundem-se entre traços e manchas, no sentido em que pertencem ao fluxo. Nessa referida economia, Shintani impregna suas pinturas com movimento; em constante trânsito, sejam manchas ou grids, as obras lutam para não serem apenas mais uma imagem, em um tempo em que vivemos saturados e absorvidos pela mídia. Sinopse aproxima-se de uma pintura em vertigem: é como se o seu compromisso com a invenção estivesse fundado em um constante desmoronamento, como se a pintura morresse a cada minuto para que no seguinte surgisse um novo estado de representação. Nesse sentido, isto também significa que Shintani teve a liberdade de direcionar o problema da pintura sem sentir o fardo diário de ter de justificar sua existência.

Situado em um interstício entre a delicadeza e a suavidade, Sinopse ressalta que o exercício da linha pode se configurar em poucos traços ao mesmo tempo em que emana uma variável substancial de discursos poéticos. Na relação de escala entre obra e espectador, os fragmentos de espaço capturados pela artista criam uma nova rede de interlocução e aparição: no lugar de se entrincheirar em um relativismo sem fim, a pintura de Shintani se funda no imprevisível e o assume, expondo-o. Naquele recorte de espaço, estão lá as intenções e as escolhas, as decisões e as tomadas de posição que se colocam como motor de expressão da pintura e como possibilidade de resolução dessa imprevisibilidade. Nesse jorro de interrogações, Shintani evidencia que o valor do prazer do procedimento pictórico é a experimentação.

"Apolo", 2010. Resina acrílica sobre tela. 110 cm x 80 cm.

+ textos sobre exposições

Pintura Como Expansão. Felipe Scovino, 2010.
Sobre mostra na Mercedes Viegas Arte Contemporânea, Rio de Janeiro.

Quimera. Paulo Sérgio Duarte, 2009.
Sobre obra apresentada no Programa Rumos Artes Visuais - Trilhas do Desejo.

Ecologias do olhar. Juliana Monachesi, 2008.
Sobre mostra na Galeria Marcelo Guarnieri, Ribeirão Preto.

Entre o silêncio e a dissonância. Fernanda Albuquerque, 2007.
Sobre mostra na Temporada de Projetos 2007-2008, Paço das Artes, São Paulo.

Quimera. Guy Amado, 2007.
Sobre mostra na Galeria Virgílio, São Paulo.

Antimatéria. José Bento Ferreira, 2007.
Sobre mostra no Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo.

+ outras publicações

Macumbinha. Alice Shintani, 2012.

Manãna. Alice Shintani, 2011.

Morangos. Alice Shintani, 2009.

Entrevista. Jornal NippoBrasil, 2009.
Impressões gerais sobre o tal "artista emergente" e o circuito de arte.


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